Michael Aim
Fundador e CEO
A transformação digital deixou de ser uma opção para as economias africanas: agricultura, indústria, serviços financeiros, administrações, todos os setores são empurrados em simultâneo pela concorrência global, pela chegada massiva da inteligência artificial às cadeias de valor e por políticas públicas cada vez mais estruturadas. São 54 Estados, outras tantas trajetórias, mas em toda a parte se opera a mesma mudança: de uma transformação sofrida para uma transformação organizada.
Três motores que estruturam o movimento
O primeiro motor é nacional: a maioria dos Estados dotou-se de estratégias digitais, com agências dedicadas, planos de identidade digital, desmaterialização dos serviços públicos e apoio à economia digital. A qualidade de execução varia, mas o enquadramento existe, e cria uma expectativa: as organizações públicas e privadas passam a ser esperadas a avançar.
O segundo motor é continental: a zona de comércio livre continental africana aproxima os mercados e impulsiona a harmonização. Para uma empresa, exportar para o país vizinho torna-se uma perspetiva realista, mas é preciso conseguir demonstrar que se atingem os padrões esperados, sanitários, de qualidade ou digitais.
O terceiro motor, muitas vezes subestimado, é regulamentar e setorial. No espaço UEMOA, o BCEAO enquadra os dispositivos de governação, de gestão de risco e de adequação de fundos próprios das instituições financeiras; na zona CEMAC, a COBAC desempenha o mesmo papel. Os regimes de proteção de dados pessoais generalizam-se, as exigências de cibersegurança aumentam. Setor a setor, a exigência codifica-se, tornando-se, em princípio, mensurável.
Realidades muito contrastantes
No terreno, as diferenças continuam consideráveis, entre Estados, entre setores e dentro do mesmo setor. Um banco pan-africano e uma instituição de microfinança não partem do mesmo ponto perante as mesmas exigências prudenciais; uma cooperativa agrícola exportadora e uma exploração familiar não vivem a rastreabilidade da mesma forma; uma administração da capital e uma autarquia provincial não têm nem os mesmos meios, nem as mesmas competências disponíveis.
Esta heterogeneidade não é um escândalo, é um ponto de partida. O problema está noutro sítio: a maioria das organizações não sabe precisamente em que ponto se encontra. Os diagnósticos existentes são pontuais, feitos por consultoras com grelhas próprias, raramente comparáveis entre si e quase nunca acompanhados ao longo do tempo.
O elo em falta: a medição
Entre a política pública e o terreno, falta assim quase sempre um elo: a medição. Como saber em que ponto está um banco face às exigências do seu regulador, antes de a inspeção o dizer? Uma cooperativa face aos padrões de exportação, antes de o cliente romper a relação? Uma administração face ao seu roteiro digital, antes do balanço de mandato?
A questão também se coloca a quem financia. Os doadores internacionais, os bancos de desenvolvimento e os programas públicos mobilizam meios importantes para a transformação do continente; sem uma base de medição homogénea, o impacto desses financiamentos conta-se mais do que se demonstra, e as decisões entre beneficiários são tomadas sem instrumento.
É precisamente este o problema que um referencial de maturidade resolve: transformar uma exigência, regulamentar ou estratégica, em critérios mensuráveis, medir cada organização com base nesse referencial comum, e depois converter os desvios num plano de ação datado. A fotografia torna-se trajetória, e a trajetória pode ser pilotada.
Os serviços financeiros, laboratório da medição
Se é preciso um setor testemunha, é o financeiro. A região demonstrou a sua capacidade de salto tecnológico com o mobile money, e a supervisão estruturou-se aí mais depressa do que noutros lugares: dispositivos prudenciais do tipo Basileia II-III na UEMOA desde 2018, exigências de governação e de gestão de risco, processos de adequação de fundos próprios. O enquadramento existe; a questão passou a ser a da profundidade de aplicação.
E essa questão coloca-se de forma diferente consoante a dimensão: um banco pan-africano e uma instituição de microfinança vivem os mesmos textos com meios sem comparação possível. É exatamente o caso de uso de uma medição de maturidade proporcionada: os mesmos critérios, uma leitura honesta dos desvios, prioridades adaptadas aos meios reais.
Por onde começar
A experiência sugere uma ordem simples. Primeiro, escolher o referencial certo: o do regulador, quando existe, ou um quadro setorial reconhecido, caso contrário. Depois, medir sem esperar estar pronto: um primeiro diagnóstico imperfeito mas estruturado vale mais do que um levantamento ideal sempre adiado. Por fim, institucionalizar o ciclo: reavaliar em intervalos regulares, com base na mesma referência, para que o progresso se torne visível e demonstrável.
É esta a convicção que estrutura o nosso catálogo: os dispositivos BCEAO / UEMOA e BEAC / CEMAC representam por si só 39 referenciais prontos a usar, ao lado dos quadros internacionais de cibersegurança, de dados ou de sustentabilidade. A transformação africana merece mais do que folhas de cálculo: merece instrumentos.